Deparar-se com a dura realidade da vida nas comunidades é um pouco do que encontramos na obra: GUETOS O APARTHEID URBANO, uma visão de dentro para fora, que é dotada de um realismo feroz. Nela, o autor nos apresenta uma obra contemporânea que retrata a experiência do convívio nas comunidades denominadas favelas, passando pelo naturalismo e determinismo encontrados no processo de construção identitária.
A linguagem utilizada tem pertencimento característico regional e o autor preocupa-se em trazer ao seu público a denúncia de todas as mazelas sociais impostas por um sistema excludente e hostil às comunidades desfavorecidas e desassistidas étnica e socialmente falando.
O livro retrata um panorama segregacionista e real, não singularizando a favela soteropolitana, mas mostrando num contexto geral: os sonhos, as decepções e aspirações de quem vive nessas comunidades, especialmente a juventude periférica e majoritariamente negra, juventude essa que abarca as maiores vítimas de um genocídio étnico e quotidiano. São elas que ocupam a condição de maioria somente nas referidas favelas e nos complexos penitenciário, e, mesmo vivendo na cidade com maior concentração de negros fora da África, esbarram-se em entraves diversos para o estabelecer do elo ancestral e para o romper dos empecilhos no processo da almejada inclusão social.
No livro, são abordadas questões que perpassam a transição da adolescência à idade adulta, as dificuldades de acesso ao primeiro emprego e à educação de qualidade, as privações de acesso aos direitos e garantias constitucionais, o contexto da intolerância religiosa, assim como outros inúmeros obstáculos que são impostos nas trincheiras do bruto sistema.
Com abordagens em verso e prosa são transmitidas ao leitor as expectativas de toda uma comunidade que vive à margem das estruturas de poder, com uma visão crítica do sistema governamental e do comportamento social, o que mostra um pouco do modus operandi" do sistema racista.
O livro começa com o personagem principal impaciente no auge de sua adolescência e que busca seus caminhos. Depois, segue com a linha racional de desenvolvimento sem proteger o personagem de sofrimentos, angústias e dolorosas perdas. É um livro que mexe com a revolta de quem não vive inserido neste sistema e transparece a quem vive a sua realidade, sem deixar de insuflar nos mesmos o sentimento de indignação.
Boa leitura!